domingo, 25 de agosto de 2013

Viva o Chacrinha!

Li esse texto outro dia e achei que valia a pena postá-lo cá!! Desfrutem :)

VIVA O CHACRINHA!

Existem argumentos a serem evocados para discutir-se o que seja cultura, não definições: a cultura como uma totalidade definindo-se como cultura.Quando Caetano diz ser o Chacrinha muito mais cultura que Flávio Cavalcanti, tem-se aí um ponto de vista fundamental para essa discussão. O conceito de Caetano coincide com o meu, segundo o qual o grande erro é querer-se transformar a cultura, nas suas manifestações, em algo “bem comportado”, “ bonito”, digno dos lares burgueses com seus preconceitos do que seja bom ou mau, etc. Desde de cedo aprendi uma coisa importantíssima: nas manifestações da criação humana tudo vale, principalmente o que violente nosso “bem estar” conformista.
Quando vi Klee pela primeira vez me irritei: algo mudara em mim; mas esse algo cresceu, objetivou-se e o próprio Klee me ensinou a desconsiderar completamente o que chamamos de bom e de mau gosto:em arte isso não existe, o que existe é a imaginação criadora de cada indivíduo, que não deve nem pode parar. Antigamente eu não dava a menor importância ao programa do Chacrinha_ gostava mas não ligava muito.De repente, foi-se tornando para mim importante, interessei-me em ver sempre que possível o seu programa: algo é sempre acrescentado a cada um, como elemento criador.
É uma manifestação espontânea sempre dinamicamente improvisada, de um estado criador. Por que então os chamados “cultos” e “sérios” da nossa cultura vivem a dizer: “ loucura! Burrice! Retrato do Brasil subdesenvolvido”, etc? Na verdade, o retrato negativo dessa cultura brasileira são eles mesmos, com essa eterna mania universalista e acadêmica de serem europeus ou americanos. Pois eu sei que sou inteligente e criador, e digo: me alimenta muito mais o programa do Chacrinha que os milhares de artiguetes literários ou exposiçõezinhas de arte que há por aí.
Os meus Parangolés pode ser mais facilmente apreendidos num contexto como o do programa do Chacrinha ou a quadra da Escola de Samba da Mangueira do que numa galeria de arte. Uma coisa é viva: o programa do Chacrinha; as outras são paliativos impostos por uma burguesia agonizante para impingir o seu status à coletividade, seu gosto e sua moral agonizantes e improdutivos. Daí então vem Flávio Cavalcanti condenar, por exemplo, a música caipira:”Isso é ruim”, esperneia ele;”ouça Marcos Valle, isto é bom!”. E por aí vai, como se o fenômeno criador fosse algo controlado segundo um padrão de gosto, de bem e de mal, e outros cacoetes burgueses e intelectualóides. Há algum tempo não ouvia os discos de Ângela Maria. Deu-me repentina vontade de ouvi-los. Achei-os mais belos do que nunca. Ângela é realmente genial, integra, total, quando canta vive. Pois criaram aí o mito de que Ângela Maria é cafona, ruim, é submúsica, etc., conceitos que não existem.
Essas pessoas são as mesmas que outrora condenavam tudo de bom: hoje continuam do mesmo modo. Por quê? Obra de quem escolhe ou diz isso é bom, aquilo é ruim: os criticóides, a burrice entronizada em alguns jornais e revistas, e os grupinhos semi-intelectualizados da classe média- os burgueses que acham a dama do high society elegantíssima( para mim ela é que de uma cafonice exemplar). Mas, dentro desse contexto, existem exceções, como Maria Bethânia, por exemplo, com toda sua personalidade de grande cantora e sua inteligência lúcida: ela não hesitou em repor Ângela Maria. É impossível que as vivencias que tenho sejam falsas, pensava eu outro dia. Por que é que se fecham as pessoas em conceitos? Adoro os Beatles ou Roberto Carlos, Chico Buarque ou Caetano, Clementina ou Cartola, Luís Gonzaga ou Billy Holliday, Mangueira ou Portela.O difícil é ser total -é preciso para ser criador, ser aberto. 

[fonte: Marisa Alvarez Lima, Marginália, arte e cultura na idade da pedrada. Rio de Janeiro: Aeroplano, 2002]

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